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terça-feira, 9 de junho de 2020

A Infância Negra nos Guetos e Quilombos, Contada Por Quem Verdadeiramente as Vivenciou.




A Infância Negra nos Guetos e Quilombos, Contada Por Quem 

Verdadeiramente as Vivenciou.


 Por   FABÍOLA ROSA DOS SANTOS

 FRANCISCA  MARLEIDE DO NASCIMENTO



Fonte : Arquivo pessoal

 Ah, a infância! Doces lembranças das tardes preguiçosas, dos quitutes da vovó, das brincadeiras de roda, do afago de mãe ao ralar o joelho no futebol na rua, das férias no campo, dos amigos da escola, dos primeiros amores... Um saudosismo cheio de cores e sons, nostálgico, que dá um quentinho no coração né, querido leitor. Essa realidade, entretanto, não pertence a todos. Infelizmente.

Quem viveu a infância nas décadas de 1970 ou 1980, hoje adultos, com suas famílias, carreira, profissão e filhos, pode ter caído na falácia, subjetivamente imposta, da reprodução social da infância da criança pobre preta brasileira pitorescamente pintada por imagens de grupos de corpos sem camisa, suados, com sorrisos de dentes largos e brancos, agarrados tão felizes à uma bola num campinho de várzea, que se esqueceu ou suprimiu a realidade cruel e violenta que esse período representou na infância dessas pequenas almas negras periféricas Brasil afora.

O boom do êxodo rural os colocou, sem nenhuma organização ou senso de humanidade, em guetos que se proliferaram desenfreadamente:  novos quilombos urbanos,  morros, invasões, ladeando pontes e rodovias, longe dos olhos dos que, no topo da pirâmide econômica, se valiam de sua mão de obra barata e seus corpos ávidos por trabalho para sustentar os filhos.

Ali, seus pequeninos iam sendo criados. Ali, em meio à pobreza e desamparo governamental, iam aprendendo a duras custas, o peso que sua cor trazia.
Difícil, inconcebível eu diria, que a menininha da mamãe, amada em sua casa, com suas tranças ancestrais lindamente arrumadas, chamada pelos seus de princesa, compreendesse o porquê da hostilidade com a qual era tratada na escola. “Como assim? Mas mamãe me diz que sou princesa, porque aqui me chamam de macaca e todos riem?” “Professora!!”, grita e chora a menininha.  Ah, essa ri também, e a manda pro castigo, “menina respondona!”.

E essas crianças voltam pra casa, não querem saber da escola. A escola também não os quer. Professores, em sua maioria brancos, não tem disposição para lidar com essa questão. Como explicar algo que sabem ser ilegal, mas que concordam plenamente? Lugar de preto é onde mesmo??? E o ciclo está completo: segregação, menosprezo, marginalização. Fórmula mágica.

Imagine a dor, a angústia, o desespero e o ódio de uma mãe ao voltar pra casa, bolso vazio, barriga idem, mãos e pernas doendo de tanto trabalhar,vendo seus filhos sendo expulsos lentamente da escola, sutilmente desestimulados, matando a esperança de um dia os ver sendo “dotô”. Imagina? Então, soma-se a isso a fome, o abandono, a bebida, as drogas, a violência, o machismo... Imaginou? É o mundo encantado que não aparecia no programa da Xuxa. Era a realidade.

“O que você vai ser quando crescer?” “Jogador de futebol igual ao Pelé, claro.” Mas não dava pra serem todos Pelé. Não havia representatividade, não nos víamos fora dos nossos núcleos familiares. Éramos motivo de piada ao dizer que queríamos ser médicos, ou modelo, ou atriz, ou qualquer outra coisa que não fosse empregada doméstica ou serviço braçal. E o sistema dava seu jeito, ele vencia. Mais uma vez, o ciclo. Ainda pequenos, aprendiam a cuidar da casa, responsabilidades de um adulto. Lavar, passar, cozinhar, cuidar dos irmãos pequenos enquanto os pais saiam antes de amanhecer pra trabalhar. Eram transformados em adultos à força.

Logo vinha o trabalho, aos 8, 10 anos de idade. Aos meninos, as feiras livres, construções ou lavouras. Às meninas, as casas de família. A esperança de dias melhores, a promessa de que a Sinhá moderna iria lhes dar estudo, roupa e uma vida boa logo era dissipada. Acordar antes do dia amanhecer, ir deitar-se onze da noite, trabalhar dezoito horas por dia, era rotina, de domingo a domingo. Ser “como da família”, mais uma falácia. Os abusos eram incontáveis: físicos, mentais, psicológicos. Fome e humilhação, ser escravo da patroa, ser serviçal dos filhos dela, ser alvo da luxúria do Sinhozinho. Aqueles pequenos corpos eram invariavelmente violados, ali no quartinho minúsculo e escuro mesmo, sobre uma cama fria e dura. A saudade de casa corroía, não entendia o porquê de tanta maldade; e não podia questionar sob pena de ser expulsa dali.

A patroa, nas rodas de conversa com os seus, se gabava do quanto era boa e generosa, ao dar uma fruta podre, um sapato velho, uma coberta rota pra pobre menina... E a criança ia se acostumando com isso. Normalizava esse comportamento, afinal era a única vida que conhecia.  Sem acesso a informação, sem estudo, sem representatividade, onde só via seu povo representado na sociedade e na TV em situação igual à sua, não podia esperar mais que isso. E quando seu patrão e seus filhos cansavam de abusar de seu corpo já impuro, voltava pra casa, humilhada, destruída, profanada, invariavelmente com um rebento na barriga. Era tida puta, ingrata, traidora, se engraçou para o lado do Sinhozinho. Teria que sustentar uma família sozinha e seu filho fadado a ter a mesma infância que a mãe. Estava concluído mais um ciclo. Repito, eram crianças!


Foto: Alex E. Proimos - Creative Commons


Corpos negros importam, vidas negras importam, ouvimos hoje. É 2020. São décadas de dor e sofrimento, das quais as lembranças e feridas daquela infância roubada tivemos que enterrar lá no fundo da alma. Não tínhamos voz, devíamos ser gratos. O discurso do branco salvador era mais alto do que a realidade nos quartinhos de empregada. Dor, é grande a dor que carregamos. Os abusos, a escravidão do trabalho infantil, os xingamentos no pátio da escola, o medo surreal da polícia. Isso não passa. Parafraseando Racionais Mc’S, “..inteligência e personalidade mofando atrás da porra de uma grade” é uma constante. Daqueles, dos nossos, que sobreviveram, a poucos coube a cadeira de uma universidade. Das meninas estupradas nas casas dos patrões, poucas superaram esses traumas e conseguiram seguir em frente. Ou seguiram apenas pela teimosia biológica de viver.

Mas a vida prosseguiu, sem nos perguntar como superar esses demônios. Sem reparação, sem justiça, sem processo ou prisão para os algozes de nossa juventude. Ainda o ciclo. Hoje, quando gritamos contra a intolerância e o racismo, nos chamam de vitimistas ou ‘mimizentos’. Mas, se soubessem por que gritamos, se sentissem um dia da nossa dor, talvez fosse diferente.

Hoje, gritamos e gritaremos a plenos pulmões “CHEGA!”. Deixem nossas crianças serem crianças, não roubem sua imaculada inocência, não os escravizem mais. Porque, hoje, o ciclo está sendo quebrado.

Sobre as autoras : Esse texto foi construído através das mãos ávidas de duas mulheres pretas, Fabíola Rosa dos Santos  Francisca Marleide do Nascimento, fortes e guerreiras. Suas lembranças, retiradas duramente de onde foram deixadas, desenham a realidade de uma infância sem direito a contos de fadas ou brincadeiras de roda. São lembranças amargas de uma sociedade que as via e tratava com a crueldade impensável a ser dispensada a uma criança. Mas é a realidade. Sejamos firmes, e continuemos combatendo o racismo em todas as suas facetas.

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2 comentários:

  1. Texto maravilhoso, quanta realidade e transparência ao falar sobre a vivência negra! Parabéns, excelente reflexão.

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  2. Meu Deus. É tão verdadeiro e forte este texto. Admiro a coragem de vocês. Parabéns e obrigada.

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