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INÁCIO

 

          Tinha chovido muito na noite anterior e, naquele sábado, quando veio o dia, o céu parecia um hematoma no rosto de uma criança que, por descuido, chocou-se contra a parede. A impressão era de que o mundo inteiro havia acordado depressivo naquela manhã. Apesar de todas as coisas ruins que estavam acontecendo na vida de Lucas, ele sabia que ficar em casa dormindo até tarde não iria, de maneira alguma, resolver seus problemas, muito pelo contrário, só pioraria ainda mais a sua situação.         

          Então, ele levantou, foi ao banheiro, urinou, lavou o rosto, encarou-se no espelho e deu uma arrumada na bagunça que seu cabelo loiro estava por causa da noite mal dormida; escovou os dentes, depois pôs um copo no fogão para fazer o café. Estava sozinho em casa e na grande cidade onde morava, mas ficar sozinho não era tão ruim assim, ruim mesmo era estar rodeado de pessoas que só ligavam para o seu próprio umbigo.          

          Foi até o quarto para arrumar a sua cama e colocar dentro da mochila todas as suas coisas do trabalho. Voltou à cozinha e coou o café, depois de tomá-lo e comer o resto de bolachas velhas que estavam dentro de um pote no armário, foi se arrumar para pegar o primeiro ônibus que o levava até uma estação de metrô, dali seguia para o serviço.

          Trabalhava como garçom em um restaurante chique em um bairro nobre no centro da cidade de São Paulo chamado Crisalis. Seu trabalho era basicamente servir bem e educadamente a todos. Um papel que ele desempenhava muito bem, pois era um dos melhores atendentes do lugar, e talvez fosse a sua rebuscada cortesia que fez com que Inácio olhasse diferente para ele. Quando estava preparando o estabelecimento para receber os clientes para o almoço, naquele dia, Inácio e sua família entraram no restaurante, quando eles chegaram, o maître de Lucas tinha lhe pedido para ir atendê-los.            

— Seja muito simpático com aqueles ali, são pessoas bem faladas, se é que você me entende. O homem é um empresário muito bem-sucedido, então não se esqueça de recomendar os pratos mais caros da casa.

­— Pode deixar, Sr. Alberto.

          Enquanto Lucas se dirigia à mesa da família, o som ambiente era preenchido com a belíssima voz de Nina Simone, a música que estava tocando era “Feeling Good”. Lucas observou que Inácio era galante, tinha traços bonitos, cabelos bem cuidados e não aparentava ser tão velho como os outros homens da sua idade. Além disso, obviamente malhava, porque tinha um físico bem robusto. Já a sua mulher; tinha um rosto jovem, belos olhos verdes que pareciam esmeraldas escuras cravadas bem no meio de seu rosto, fora o lindo cabelo castanho que caia como uma cachoeira de sua cabeça. Estava usando um belo vestido preto que, no mínimo, devia ter custado uns dez mil reais. A filha deles, a garotinha, era muito parecida com ela, porém herdara os olhos escuros do pai. Lucas aproximou-se e disse: 

— Sejam muito bem-vindos ao Crisalis! Já consultaram o nosso cardápio? Se não for muito incômodo, eu gostaria de recomendar o nosso prato do dia: caviar.

— E qual é o seu nome, meu jovem? —  indagou Inácio.

— Me chamo Lucas, Senhor... Sr...    

— Inácio. 

— Sr. Inácio! 

— Só Inácio, por favor. Chame-me apenas de Inácio, senhor faz-me sentir velho.

— Será como desejar, Inácio.  Então, gostariam de pedir alguma entrada.

— Olha, vamos começar com esse carpaccio de vitela. Traga-nos dois, por favor. E depois vou pedir uma massa, acredito. 

— Vamos comer algo mais leve. – Dessa vez quem falou foi a mulher, incisiva. 

— Ilsa, não estou a fim de comer algo mais leve. Quero comer algo que me satisfaça. Depois nos indique algumas massas, tá bom, meu jovem? Vocês também servem comida Italiana aqui, né?  

— Sim, servimos! Nosso chefe de cozinha faz um espaguete à carbonara maravilhoso! 

— Então, vamos comer esse espaguete depois!

— Ah, temos um menu infantil também, gostariam de pedir algo para a menina? Assim já adiantamos o dela.

— Tem alguma massa para crianças nesse menu, caro Lucas?

— Tem uma com filé mignon e outra com frango.

— Bethânia, frango ou carne vermelha?

— Frango, papai! Frango!

— Enquanto à massa, penne ou espaguete? — pergunta Lucas ao pai da menina.

— Betânia…

— Espaguete!  

— Hum... E de bebida, o que vão querer tomar?  

— Traga uma garrafa de Barolo para mim e minha esposa, para a garota, traga suco natural, por favor.

— O.K., qual sabor?    

— Melancia, papai! Eu vou querer o de melanciaaaa!!!

— Comporte-se, Bethânia! Não precisa gritar, ninguém aqui é surdo! – Repreendeu-lhe a mulher.  

— Ilsa, não seja assim tão grossa – Disse Inácio.

— Não estou sendo grossa, apenas estou tentando dar alguma educação para essa sua filha.    

— Nossa filha, sua estúpida! Quantas vezes vou ter que repetir isso?  Traga um suco de melancia para a nossa linda Betânia, rapaz. Vou querer uma água sem gás também. Ilsa, você vai querer?

— Não, obrigada, querido.

— Anotado, daqui a alguns minutos estará tudo pronto. Aguardem um pouco, por favor. Com a sua licença.

— Ah, rapaz, podemos ter uma conversa depois?

— É… Claro! 

          Lucas mantinha uma expressão convidativa no rosto, mas quando se virou em direção à cozinha do restaurante, franziu as sobrancelhas. O que aquele homem está querendo conversar comigo? E aquela mulher, por que ela é tão grossa? Onde foi parar toda a beleza e elegância dela?

          Deixou os pedidos na boqueta da cozinha e foi até a adega pegar o vinho. Perguntou-se também se eles discutiam assim em casa. Coitada da garota — murmurou. Assim que os cozinheiros terminaram de preparar o carpaccio e a massa da menina, Lucas organizou os pratos na bandeja e pediu a ajuda do hanner de cozinha para levá-los até a mesa, precisava abrir o vinho para o casal. Ao cruzar o salão para servi-los, viu que ele e a mulher ainda estavam discutindo. Quando estava abrindo o vinho, percebeu que Inácio não tirava os olhos dele. A mulher, por sua vez, não escondia a insatisfação também.  

— Salute! — disse. E, depois de servir os pratos, se retirou, pois não queria ser mais um motivo para a infelicidade daquela família. 

Atordoado com toda a situação, Lucas resolveu ir até a cozinha para beber um pouco de água e fugir dos olhos indiscretos de Inácio. Os pratos principais demorariam a ficarem prontos, e ele ainda tinha mais alguns minutos para tentar entender o que estava acontecendo. Quando entrou, não deu muita bola para o que os cozinheiros do chefe Daniel estavam falando sobre si, que já tinha se acostumado com as chacotas diárias dos colegas de trabalho que adoravam chamá-lo de Gisele Bicha; um apelido “carinhoso” que havia recebido por andar sempre desfilando no salão.  

Já haviam passado mais de uma hora que Inácio e sua família tinham chegado no Crisalis, e Lucas não conseguia tirar a terrível pergunta do ilustre cliente da cabeça: “Ah, rapaz, podemos ter uma conversa depois?”. Era como se a frase tivesse aberto a porta de um quarto escuro e Lucas não soubesse ao certo se deveria ou não entrar. Enquanto estava parado no bebedouro da cozinha pesando sobre a situação desconfortável com Inácio e sua mulher, nem se deu conta de quando o Sr. Alberto havia entrado ali.  

— Lucas, finalmente te achei! O que você está fazendo aqui? Era pra você estar lá fora, no salão, o Sr. Inácio e sua família não podem ficar sem um garçom exclusivo.

— Inácio. Apenas Inácio. Segundo ele, chamá-lo de senhor o faz sentir velho. Chefe Daniel, por favor, já pode liberar os pratos principais.

— O.k., Gisele! Quer dizer... Lucas! 

— Haha, estou morrendo de rir! Com a sua licença, Sr. Alberto.

— Apenas, Alberto, por favor. Senhor faz-me sentir velho.

— Deus, é contagioso isso?

Ao voltar para o salão, Lucas preferiu ficar um pouco próximo ao bar. Ilsa o encarava como uma pantera. Era como se não existisse mais ninguém ali além dos dois. Ao aproximar-se da mesa para retirar os pratos já usados da entrada, Lucas foi surpreendido com uma estocada de faca bem no meio da barriga. Quando se agachou para pegar o guardanapo e estancar o sangue, a mulher deferiu mais duas estocadas em suas costas. Sua camisa branca rapidamente ganhou tons de um vermelho vivo. O mundo começou a girar ao seu redor e os sons do ambiente se misturavam em meio a gritos, “I Put a spell on you” e o choro de uma criança. A única palavra que saiu da boca de Lucas foi: “Inácio”.  

 



Autor: Luiz Vieira

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