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Quais são os limites da solidão da mulher negra?




Quais são os limites da solidão da mulher negra?


Por Marta Quintiliano

Paula de Almeida Silva




Fonte: imagem da internet


Muito se ouve sobre a solidão da mulher negra, mas geralmente enfatizando relacionamentos heteronormativos e limitando a solidão à ausência de um relacionamento afetivo-sexual. Sim, em uma sociedade que capitaliza o amor, que oferece o afeto como escada para novas hierarquizações sociais atreladas à uma sociedade patriarcal, sim, a solidão por não ter um companheiro ou uma companheira é atroz. Todavia há outros escopos da solidão que uma mulher negra enfrenta.
É impossível pensar em solidão e não pensar em infância. Na infância e na escola em que muitas de nós não tínhamos afeto de coleguinhas, da professora, que gritava sem paciência com a gente sem nenhum motivo. Ainda que houvesse “coleguinhas”, dificilmente você era a melhor amiga de alguém, muitas vezes era somente motivo de piada mesmo e tolerava as piadas porque não queria ficar sozinha. Obviamente não se trata de solidão isoladamente, se trata de uma das consequências do racismo.

O racismo é cruel, devastador e nos atinge principalmente na fase escolar vira um reduto das maldades das crianças brancas que aprenderam e se encaixaram perfeitamente na estrutura racista. E nós, antes mesmo de escrevermos nosso próprio nome, estamos lutando contra as variadas formas de discriminação. Marília Carvalho afirma em pesquisa que crianças negras são menos abraçadas e beijadas que as crianças brancas. Essa pesquisa reafirma o que aconteceu conosco e com tantas outras crianças que veem a escola como um espaço de negação da sua identidade e o reforço da identidade branca. Lembro-me como se houvesse ocorrido ontem: uma menininha, negra, de cinco anos, chorou por ter perdido sua borracha. Foi pedir ajuda para a professora, porém diante de toda a classe o que teve não foi acolhimento, ajuda. O que recebeu foram gritos daquela mulher branca que naquele momento era gigante perto dela. Essa menininha era uma das autoras deste texto. A professora fez questão de destilar seu ódio racial, sua branquitude em cima de uma criança de cinco anos. Veja só com apenas cincos anos tendo que lidar com o racismo.

A hora do recreio era um dos momentos mais torturantes.  As crianças se juntavam para nos xingar de vários nomes e ali percebemos que estamos sozinhas, que por mais que esforcemos para sermos as boas amigas, destilam o ódio racial para nossa cor de pele; que não adianta alisar os cabelos, não tomar tanto sol, ter dinheiro: as/os racistas estão ali para nos lembrar que elas/es que dominam o pátio da escola. A violência racial verbal age em conjunto com a violência física. Quantas vezes apanhamos porque éramos negras! Sim! Quantas vezes quiseram me bater porque não suportavam que eu tivesse as melhores notas da sala, que olhavam para minha mochila e diziam que era “mochila de preta”. E olhávamos com olhos cheios de lágrimas, exaustas para a professora e ela grita, pede para limpar as lágrimas e seguir e acrescenta que “não foi nada demais, segure as lágrimas!”.

E, assim, seguimos segurando as lágrimas e não aprendemos expressar nossos sentimentos, não conseguimos estabelecer conexões afetivas dentro da escola, afinal aprendemos bem pequenas que a escola não é um lugar seguro, no entanto temos que permanecer, porque é o único meio de transformamos a nossa realidade social. Quem eram escolhidas para serem princesas? Para dançar quadrilha? Para ser cortejada pelas/os os meninos/as? Poderíamos listar várias situações de solidão de abandono. Arrisco a dizer que é a pior experiência.  Lembro-me de não querer dançar quadrilha, porque sabia que não iriam me escolher. O curioso é que eu nunca cheguei a tentar dançar. Eu já sabia que não iriam me escolher, e para me poupar do sofrimento, nunca dizia que queria. Lembro-me bem que chorava muito para não ir para a escola apesar da escola ser perto de casa, sair de casa e atravessar todo um percurso de dor quando os vizinhos brancos me xingavam de vários nomes ofensivos. Só sei dizer que isso dói tanto, que às vezes eu me preocupava mais com as dores do que em estudar, sem amigas, sem parceiras, sem professoras/es com atitudes antirracistas.

Crescemos com várias marcas que nos assolam na fase da adolescência e também na fase adulta. As dificuldades são enormes em estabelecer laços de amizades, de dizer que gostamos e que a afeição é recíproca. Chegamos na universidade e a solidão continua. Onde estão as minhas iguais? Em meu curso eram somente duas mulheres negras na sala. Nenhum homem preto. Sentia empatia por essa outra mulher, mas ela era bem mais velha e tinha outros interesses. Eu também tinha outros interesses próprios da minha idade. Tive amigas brancas, no entanto nenhuma conseguia entender realmente de onde eu vinha, o que eu realmente estava falando ou sentindo. Mestrado, doutorado: onde estão as outras? Lembro-me muito bem de uma colega branca de mestrado que, enquanto eu estava explicando a conotação ultrajante da palavra mulata, se exaltou, ficou vermelha de raiva! Me disse que estava errada, que ser mulata era lindo! Nesse momento desisti de explicar de onde eu estava falando para qualquer pessoa. A branquitude não quer entender e nunca te perguntam. Mas cansa. Cansa não se ver nos lugares, ser a única no trabalho, cansa não ter mais gente para falar do seu lugar com fala e escuta afetiva.



Fonte: Imagem da Internet
A situação não mudará enquanto não estivermos em todos os espaços. De fato. Não uma ou duas, não 25%, mas com a representatividade que nos cabe por sermos a maioria neste país. Obviamente que somente por ter colegas negras não significa que seremos todas amigas. As subjetividades são muitas, os interesses vários, todavia todas essas mulheres serão amigas em potencial. Há muitos sentimentos compartilhados, a conexão será mais fácil, já que não haverá o racismo no entremeio. Finalmente, a solidão não será compulsória.


Sobre as autoras : Marta Quintiliano Mulher preta Quilombola, pesquisa Afroafeto e Cura; Paula de Almeida Silva Mulher preta, pesquisadora e professora.

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